Ver imagens Ver imagens Ver imagens Ver imagens

A génese da reforma


Livro das Obras da Universidade ou “Livro de Provisões”. 1772-73. MNMC2231

1. Livro das Obras da Universidade ou “Livro de Provisões”.
1772-73.
MNMC2231

“Hey por bem Ordenar-vos, como por Esta vos Ordeno, que passando à sobredita Universidade façais nelle restituir, e restablecer as Artes, e as Sciencias contra as Ruínas, em que se acham sepultadas: Fazendo publicar os Novos Estatutos: removendo todos os impedimentos e incidentes que ocorrerem contra a prompta, e fiel Execução delles.”
(...)
“E concedendo-vos como Concedo, sem reserva, todos aqueles que consideráreis necessários; segundo a occurrencia dos Cazos, assim em beneficio do dito Establecimento, como a respeito do Literario, e Económico da mesma Universidade em todas as suas partes: Obrando em tudo como Meu Lugar Tenente, com jurisdição privativa, exclusiva e illimitada para todos os sobreditos effeitos. E mando ao Reytor, Lentes, Deputados, Conselheiros, Oficiaes, e mais Pessoas da Universidade (…) que cumpram, e guardem o que por Vós lhes for ordenado aos ditos respeitos.”

Carta régia de 28 de Agosto de 1772. MNMC2231


2. Pormenor da Carta régia
1772-73.
MNMC2231

As cartas do rei D. José, de 28 de Agosto e de 11 de Outubro de 1772, contidas no Livro das Obras da Universidade (mais conhecido por “Livro de Provisões” ), estabelecem os princípios a que deve obedecer a reforma dos edifícios da Universidade.

Além das duas cartas do rei, encontram-se neste livro sete provisões do Marquês de Pombal e doze desenhos de arquitectura relativos a projectos de reconversão ou construção dos seguintes edifícios: Castelo, Colégio das Artes, Igreja da Misericórdia (a instalar na antiga Sé), Sé e Cabido, Hospital Público, Gabinetes de História Natural e Filosofia Experimental (estes a instalar no antigo Colégio de Jesus), Imprensa da Universidade, Laboratório Químico e nova livraria, a construir no Pátio das Escolas.

Com a expulsão dos jesuítas em 1759 e posterior extinção da Companhia de Jesus, pelo Papa (1773) estavam criadas as condições para a reforma do ensino pretendida pelo primeiro-ministro de D. José, o Marquês de Pombal. Imbuído do ideal iluminista, adquirido nas passagens por Viena e Londres, e adepto da nova pedagogia contida no Verdadeiro Método de Estudar, de Luís António Verney, instituiu, em 1770, a Junta de Providência Literária, que tinha por missão examinar as causas da decadência dos estudos superiores e indicar as reformas a executar.

A Junta, constituída por D. Francisco de Lemos Pereira Coutinho, reitor da Universidade de Coimbra, e Frei Manuel do Cenáculo, bispo de Beja, apresentou os novos estatutos, em carta de 28 de Agosto de 1772, que se consumaram com a abertura solene da “nova Universidade” no mês de Outubro do mesmo ano.

Ainda em 28 de Agosto, ao aceitar e firmar em lei os novos estatutos, o rei envia uma carta ao Marquês (fig.2), conferindo-lhe plenos poderes para implementar as novas faculdades.

Assinatura do Marquês de Pombal. C.1773. MNMC2945

3. Assinatura do Marquês de Pombal.
C.1773.
MNMC2945

São, pois, protagonistas da reforma da Universidade de Coimbra o Marquês de Pombal, ministro plenipotenciário de D. José e mentor da reforma, e o reformador reitor D. Francisco de Lemos Pereira Coutinho, a quem cabe a responsabilidade de supervisionar as obras no local ; o tenente-coronel inglês William (em português, Guilherme) Elsden que projecta todos os novos edifícios e fachadas e é o veículo de uma linguagem europeia de cariz neoclássico para o novo rosto universitário.

Coimbra antes da reforma pombalina

G . Braun e F. Hogenberg, “Illustris ciuitatis Conimbriae in Lusitania // ad flumen Mundam effigies” . C. 1598. MNMC12189

4. G . Braun e F. Hogenberg, “Illustris ciuitatis Conimbriae in Lusitania // ad flumen Mundam effigies” .
C. 1598.
MNMC12189

Embora a gravura de Braun e Hogenberg não represente com grande rigor a Coimbra de finais do século XVI, nela podemos reconhecer alguns dos seus aspectos fundamentais nessa época: a cidade alta, muralhada, à direita; o Mosteiro de Santa Cruz, ao centro, com a sua cerca alongada; os colégios universitários da Rua da Sofia, á esquerda, atrás; a cidade ribeirinha; a ponte de D. Manuel e o aqueduto de D. Sebastião. A legenda ajuda-nos a identificar, na Alta, o antigo palácio real, entregue à Universidade por D. João III, o Colégios das Artes e o de Jesus. Este edifício, em particular, foi alvo de significativas transformações no âmbito da reforma pombalina da Universidade.

Intenções de reconversão urbana

Mapa de parte da cidade de Coimbra. C. 1780. MNMC2870a

5. Mapa de parte da cidade de Coimbra.
C. 1780.
MNMC2870a

A reforma de Pombal propôs-se reconfigurar a Couraça de Lisboa, via de acesso à Universidade a partir do Largo da Portagem, principal entrada na cidade. As transformações a realizar compreendiam a regularização de pendentes, a construção de guardas de protecção, a renovação das frentes de rua e o reagenciamento da monumentalidade da velha porta romana de Belcouce. Tais projectos nunca chegaram a ser executados.

Mapa da couraça de Lisboa que ilustra as transformações para aí programadas. C. 1780. MNMC 2935

6. Perfil da couraça de Lisboa que ilustra as transformações para aí programadas.
C. 1780.
MNMC 2935

O mapa da fig. 5 mostra, além da Couraça de Lisboa, a área da acção reformadora, na Alta de Coimbra, identificando alguns dos edifícios a transformar ou construir de raiz – o Museu de História Natural, o Hospital, a Sé, o Cabido, o Laboratório Químico, o Colégio das Artes, a Sé Velha e o Observatório Astronómico, cujo primeiro piso (único a ser construído) se pode ver no extremo esquerdo de um extenso alçado da Couraça (fig.6).









Os edifícios da reforma

Para a nova Universidade projectaram-se edifícios a construir de raiz e planeou-se a reconfiguração de outros.
Novos eram o Observatório Astronómico para a Faculdade de Matemática, o Laboratório Químico e o Jardim Botânico para a Faculdade de Filosofia;

Adaptados a novas funções foram o antigo Colégio de Jesus, onde foram instaladas a Faculdades de Medicina com o Teatro Anatómico, o Dispensário Farmacêutico e o Hospital Escolar, e a Faculdade de Filosofia com os Gabinetes de História Natural e de Física Experimental. Também no antigo complexo jesuítico ficaram a nova Sé e o Cabido. A Sé Velha, como a partir de então foi designada, passaria a ser a Igreja da Misericórdia, construindo-se no seu claustro uma das “jóias” a reforma dos Estudos: a Imprensa da Universidade.

Observatório Astronómico, desenho de Elsden. C.1773. MNMC2945

7. Observatório Astronómico, desenho de Elsden.
C.1773.
MNMC2945



O Observatório Astronómico (fig.7)
A execução de um dos projectos para o Observatório, a edificar sobre as ruínas do antigo Castelo de Coimbra não passou do 1º piso, demolido aquando da reforma da década de 1940.

7. 1. Observatório Astronómico, painel de azulejos.
C.1779.
MNMC11782

O painel de azulejos (fig.7.1.), apresentando outra versão para o Observatório, faz parte de um conjunto de nove, encomendado pelo reitor, depois bispo, para decorar o paço episcopal, actual Museu.









Os jesuítas e o ensino da Matemática – fenómenos de Astronomia e
Os Elementos de Euclides

O Museu Nacional de Machado de Castro possui um conjunto de vinte e dois azulejos avulsos relativos a várias temáticas de ensino, destacando-se os que ilustram observações de astronomia (fig.8.1) e proposições e definições matemáticas, a partir de Os Elementos de Euclides (fig.8.2). Apurou-se que estes últimos são retirados da versão de Andrea Tacquet, traduzida para português ainda no início do séc. XVIII, pelo jesuíta Manuel de Campos. Daí se concluir que estas peças tenham servido o ensino no antigo Colégio de Jesus.


  8.1. Cometa Hevelius
– 1652.
MNMC5178

  8.2. Proposição 29
– 1654.
MNMC5181












Os espaços que foram da Companhia de Jesus

Laboratório Químico, painel de azulejos. C.1779. MNMC11778

9. Laboratório Químico, painel de azulejos.
C.1779.
MNMC11778

Programado desde a primeira provisão de 1772 para o local das antigas cozinhas do complexo jesuítico, o Laboratório Químico, elemento crucial dos estudos reformados, precisava de um edifício de raiz. Elsden projectou-o com formas puramente neoclássicas, inspiradas no modelo alemão, a pedido do Marquês de Pombal.

O Colégio de Jesus no séc. XVIII. Gravura. MNMC3310

10. O Colégio de Jesus no séc. XVIII.
Gravura.
MNMC3310

O Colégio de Jesus constituiu o grande alvo da política cultural do Marquês. Um dos meios para erradicar a Companhia e, no caso específico de Coimbra, dispor do vasto colégio para as instalações das novas faculdades de Medicina e Filosofia, foi fazer acreditar que os Jesuítas -por ele proscritos em 1759 -tinham estagnado o ensino em Portugal.

11. "Elevação geométrica do edifício destinado para Cabido”.
C.1779.
MNMC11781

A gravura com os edifícios em perspectiva (fig. 10) permite avaliar da dimensão deste conjunto edificado que ocupava ainda o Colégio das Artes e cujas cozinhas, em segundo plano à direita, estavam construídas onde depois se ergueu o Laboratório Químico.

O quarteirão passou assim para a alçada da Universidade, à excepção da igreja e do canto sudoeste, adstritos à Diocese e ao Cabido. A planta (fig. 12) mostra a adaptação do edifício às novas funções, distinguindo com diferentes cores os diversos departamentos.

 12. Planta do andar inferior da Sé, Cabido e Gabinetes de Física e História Natural.
C.1773.
MNMC2893

A Sé Velha e as suas novas funções

  13. Imprensa da Universidade.
C.1773.
MNMC3084

Criada para servir as necessidades dos novos estudos, a Imprensa era também o principal instrumento de propaganda da ideologia pombalina. O alçado apresentado (fig.13) mostra a fachada principal do edifício destinado à Imprensa Régia da Universidade, a instalar no claustro da nova Igreja da Misericórdia, que fora a Sé de Coimbra até 1772 (fig.14). De gramática neoclássica, com marcado despojamento decorativo, este edifício, apesar da sua modernidade, convivia bem com o pano de muro da sua vizinha medieval: a Sé Velha.

14. A velha Sé de Coimbra,
adaptada a Igreja da Misericórdia
com a Reforma Pombalina
(pormenor)
C.1773.
MNMC2231

Ecos da reforma em Coimbra

  15. Projecto para os novos edifícios da Cadeia e dos Tribunais de Coimbra.
Séc.XIX. 1º quartel.
MNMC2877

Após a morte do rei e o afastamento de Pombal, em 1777, o ritmo de execução da reforma diminui, arrastando-se as obras por várias décadas e ficando alguns projectos por concluir ou mesmo executar na íntegra.
Desta última circunstância é exemplo o projecto de José do Couto dos Santos Leal para os Tribunais na Rua da Sofia (fig.15), de apreciável uniformidade e coerência estilísticas, bastante importantes para o entendimento da reforma.

16. "Planta topográfica
da Praça de Sansão
e ruas que lá vão dar”.
1796.
MNMC2941

A integração da nova arquitectura nas preexistentes é manifesta no projecto do edifício encomendado a José Carlos Magne, por Francisco António de Macedo, para residência particular (fig.16). É um documento precioso para o conhecimento do que foi o Mosteiro de Santa Cruz e a sua envolvente até ao séc. XIX. Nele estão representados o Convento das Donas, à esquerda de Santa Cruz, seguido dos Colégios de S. Miguel e de Todos-os-Santos, com as fontes e o casario demolidos no início do séc. XX.

Ante-projecto para as estufas do Jardim Botânico da universidade de Coimbra. 1791. MNMC2885 17. Ante-projecto para as estufas do
 Jardim Botânico da
 Universidade de Coimbra.
1791.
MNMC2885 
18. Projectos para o Pórtico do
 Jardim Botânico da Universidade
de Coimbra.
1818.
MNMC2898

Do programa de ampliação dos equipamentos construídos em 1774 para o “Horto Universitário” consta o projecto para estufas (fig. 17), assinado por Macomboa, em 1791. Reflecte continuidade de soluções arquitectónicas (fachada clássica com grandes vãos e disposição da planta em T invertido) e pedagógicas, pela integração da sala de aula no centro do edifício.

O projecto para o portal (fig.18), apresentando duas possibilidades, com registo de que foi escolhida a da esquerda, data de 1818, durante o segundo reitorado de D. Francisco de Lemos Pereira Coutinho. Concretizado apenas em 1843, demonstra a coerência com o programa artístico inicial, apesar do meio século que o separa do auge da reforma de Pombal em Coimbra.

O percurso pela Coimbra pombalina termina no Jardim Botânico. Do programa de ampliação dos equipamentos construídos em 1774 para o “Horto Universitário” consta o projecto para estufas (fig. 17), assinado por Macomboa, em 1791. Reflecte continuidade de soluções arquitectónicas (fachada clássica com grandes vãos e disposição da planta em T invertido) e pedagógicas, pela integração da sala de aula no centro do edifício.