O nome de Gueda Mendes, o Gueda de Celorico, aparece muitas vezes, como testemunha ou confirmante, em documentos régiose da Cúria. Tido em alta consideração pela Condessa D. Teresa,tornou-se o mais entusiasta seguidor de seu filho – a quem chegou a dar 900 módios – no sonho de fundar o reino de Portugal.Também Afonso Henriques não esqueceu o apoio e lealdade do nobre companheiro e logo, em 1131, lhe outorga, com palavras de muita estima, carta de couto do mosteiro de Refoios.

É a S. Miguel, patrono desse mosteiro, cuja fundação deve remontar ao século XI, que D. Gueda oferece em 1152 o famoso cálice,como se lê na inscrição da base. Feito de prata dourada, o cálice apresenta uma elegância formal,um domínio técnico e uma erudição sem paralelo conhecido naourivesaria portuguesa do período românico, pressupondo a existência de artífice experiente, familiarizado com a arte bizantina e dotado de notável capacidade criativa.




Em meados do século XII, existiam boas oficinas de ourives há muito estabelecidas em várias cidades, principalmente em Braga,onde esta arte tinha uma tradição mais antiga. Que na região se tenha instalado um ourives estrangeiro a quem D. Gueda encomendou o cálice para S. Miguel, é uma hipótese,colocada há vinte e cinco anos, que se mantém convincente. Com 17 cm de altura, por 13 cm de diâmetro na boca, o cálice tem forma robusta, mas depurada – copa hemisférica, ligeiramente evasada, e pé cónico, unidos por um nó bulbiforme – uma forma tipicamente românica, com antecedentes que remontam ao romano imperial tardio.

Bem torneada, apresenta o interior polido com um espelho e o exterior inteiramente decorado a cinzel e buril: na copa, Cristo e os onze apóstolos fieis, todos nomeados na inscrição da orla; na base, os tetramorfos; no nó, uma rede filigranada. O ambiente de desafogo económico e crescimento, o apreço em que era tida a ourivesaria para louvor a Deus, adorno pessoal e afirmação de estatuto social, terão levado, nos sécs. XI e XII, à produção e importação de muitas e diversificadas peças, das quais pouco se conhece, tragadas que foram, quase todas, pela voragem dos tempos.

O cálice de D. Gueda chegou aos nossos dias porque, no século XVI, estando o mosteiro de S. Miguel em decadência, passou para a posse do Colégio de S. Bento de Coimbra e, extintas as Ordens religiosas em 1834, foi integrado no Tesouro da Sé. Em 1915 este tesouro foi incorporado nas colecções do então recente museu, de Machado de Castro.